JURA EM PROSA E VERSO

 

CULINARIA DE CACHOEIRA-BAHIA - D. RAIMUNDA E D. EVA

 

Começar o dia com um mingau de milho fresquinho é privilégio de quem mora ou de quem passa por Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Quentinho e saboroso, pode ser degustado com uma pamonha feita na hora. Tem também milho cozido, bolo, docinhos e outros quitutes que cheiram a São João. Tudo feito pelas mãos das filhas de Madalena, como se orgulham a se apresentar Raimunda e Eva.

Todo santo dia, de cedinho até o anoitecer, basta passar pelos arredores do Mercado Municipal da cidade que qualquer um sabe indicar onde encontrá-las. São dois pontos. Um fica bem em frente ao mercado e o outro em uma área reformada para os empreendedores da cidade, que, por sinal, leva o nome da quituteira mais ilustre da família, hoje em memória.

E não tem essa de concorrência. A produção de cada dia das duas juntas, muitas vezes, não é o suficiente para atender tamanha procura. Quanto mais perto do São João, maior o movimento. Vem gente de fora para comprar, encomendar ou até para espiar e tentar aprender como fazer coisas tão gostosas. Mas não adianta nem se arriscar. Uma comida tão afetiva, que tem tanta história para contar, não dá para reproduzir tão facilmente.

Raimunda, que já criou quatro filhos de parto e outros quatro adotados com as receitas a base de milho, não cansa de agradecer pelo dom herdado. “Em outros tempos, a gente chegava a dormir no lugar mesmo para conseguir dar conta da demanda”, lembra a senhora, hoje com 65 anos, dos gloriosos anos que trabalhou ao lado da mãe.

Dona Madalena, naquele mesmo lugar, começou uma história que se tornou patrimônio imaterial da cidade. Não tem quem nunca tenha tomado um mingau ou comido as pamonhas saborosas dela, com fartos pedaços de coco na receita. Desde os 10 anos, Raimunda espiava tudo de perto. Sempre foi o braço direito – e esquerdo – da mãe. E como recompensa, aprendeu direitinho o tempero de Madalena. Uma herança valiosa.

Não tem um que se queixe de falta de sabor. Os ingredientes, parte fundamental da receita, são escolhidos a dedo por Eva, que só passou a se dedicar de corpo e alma ao negócio um pouco mais velha, após deixar de lado a carreira de professora. “Nesta época do ano, eu chego a ir três vezes por semana a Feira de Santana para comprar milho”, conta a outra quituteira da família.

Em junho, a fama delas chega a novos lares. A produção acelera. Envolve toda a família. Cansaço? Que nada! É um povo trabalhador, alegre e de uma simplicidade ímpar. Fazem tudo com amor e por amor. Vale a pena experimentar. E, olha, tem um custo bem amigável. Basta contar que, com R$ 50, dá para ajeitar quase toda a ceia junina de uma pequena família. Passa lá. A cidade de Cachoeira é linda e o povo acolhedor. Além de um tempero saboroso, você será recebido com um sorriso no rosto impagável.