NÃO DURMA ESTA NOITE

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        Após ter, mais uma vez, examinado cuidadosamente a criança e conferido o resultado de alguns exames que pedira, o clínico-geral sentenciou:
_ Os exames não apontaram nenhum problema físico com o seu filho, mãe. Desse modo estou encaminhando-o para um psiquiatra.
Verificando a excessiva agitação daquele garotinho irritadiço de cinco anos incompletos que soltava palavrões e que chegava mesmo a tentar agredir fisicamente, com socos e chutes, os enfermeiros e o médico, quando precisavam tocá-lo, o psiquiatra prescreveu-lhe um calmante.
_ E essa história que ele conta sobre o bicho que mora embaixo da cama dele – indagou a mãe aflita _ o que pode ser isso, doutor?
_ Bem, assim como na idade do seu filho é comum que as crianças tenham os seus amiguinhos imaginários, também é natural que elas criem seus próprios monstros. Em parte _ o psiquiatra tratou logo de esclarecer _ isso é culpa dos pais que vivem invocando o bicho-papão caso o filho não coma direitinho ou não queira obedecer a uma ordem. Em seguida, dando a consulta por encerrada, o psiquiatra informou:
_ Vamos dar um prazo de três meses para ver o efeito da medicação. E apertando a mão da mãe do garoto, o médico se despediu. Era então meados da década de setenta.

Ora, o pequeno cria que estava destinado a sofrer pelo resto de sua vida, afinal ninguém acreditava nele e isso o revoltava. “Por que não acreditam quando eu falo sobre o bicho horrível que mora embaixo da minha cama e não me deixa dormir à noite, por quê”?
Às vezes a criatura, um ser disforme, saía debaixo da cama e se arrastava pelo quarto emitindo sons graves incompreensíveis. Quando vencido pelo cansaço, por tantas noites passadas em claro, o menino finalmente conseguia adormecer, a criatura, que nessas horas se fazia invisível, aplicava-lhe surras e mordidas nas suas partes íntimas, vociferando insultos “vai morrer, filho da puta”!
Mesmo quando o quarto estava quieto, o garoto pressentia que o monstro estava ali debaixo da cama à espera que ele caísse para pegá-lo. De fato essa sensação de estar sendo espreitado jamais o abandonava.
Teve um pouco de esperança quando seus pais se mudaram para uma nova casa. “Quem sabe o bicho não encontre esse lugar”? Assim pensava com certo otimismo.
De fato as primeiras semanas que se seguiram na nova casa foram as mais tranquilas da vida daquela pobre criança atormentada e sua mãe atribuía as boas noites de sono do filho ao efeito da nova droga que o médico receitara. Todavia, logo o monstro retornou com toda a sua tenacidade.
Foram anos de sofrimento, com inúmeras trocas de especialistas e tratamentos. Alguns amigos chegaram até a aventar sobre a possibilidade da intervenção de um sacerdote católico, já que para estes, a hipótese de o agora adolescente estar sofrendo de algum tipo de possessão demoníaca não podia ser descartada “e demônios são de alçada da Igreja” diziam. Entretanto, a família não demonstrava nenhum interesse por religião. “Esse rapaz é fraco da cabeça, só isso” afirmava o pai, um mal-humorado e mal pago operário metalúrgico.
Como derradeira tentativa de curá-lo ou de pelo menos amenizar o seu suplício, o rapaz de semblante pálido e sempre assustado, olhos arregalados e cabelos desgrenhados, foi trancafiado em um manicômio municipal.
Já na primeira semana quase quebrara o pescoço de um enfermeiro que, em vão, tentara aplicar-lhe um injeção de sedativo durante uma de suas crises de agitação. Logo foi metido numa camisa de força e jogado em uma espécie de solitária.
Confinado e esquecido naquele manicômio, o adolescente que contava então quinze anos, conheceu outros horrores como a terapia de eletrochoque.
Um dia, depois de passar o dia inteiro imobilizado pela camisa de força em sua cela, o rapaz ouviu o barulho da chave rodando na fechadura e ao mesmo tempo uma risada estridente parecia ecoar dentro da sua cabeça. Teve medo.
_ Vamos dar um passeio, meu chapa _ informaram os dois internos que entraram.
_ Não! Eu não quero ir _ gritava o adolescente desesperado. _ Socorro, alguém me ajude, por favor!  O par de loucos carregou o jovem imobilizado pelos corredores sujos e úmidos daquela instituição e chegando aos fundos de um amplo pátio descoberto, atiraram-no dentro de uma cisterna há muito em desuso.
Os funcionários relataram à direção do velho manicômio que nada viram ou perceberam de anormal entre os internos, ou quiçá não quiseram ver.
Em fim, o caso fora tratado como sendo mais um  lamentável episódio de suicídio ocorrido entre aqueles pobres “doidos”.
Quanto ao monstro que vive embaixo da cama, ele continua perturbando o sono de muitas crianças e mesmo de alguns adultos, se alimentando do medo e da insegurança.
O velho relógio de parede acaba de bater a décima segunda badalada. Blem! Blem! Blem... Meia-noite, ele está aqui. Cuidado, ele vai te pegar!

Aldrin M Félix